comentario de livro
Tara Bennett-Goleman. 2001. Emotional Alchemy: How the Mind Can Heal the Heart.
Nova Iorque: Three Rivers Press. 417 pp. ISBN: 0-609-80903-2.
Por que repetimos, tantas vezes, comportamentos que nos fazem sofrer? Por que nos sentimos impotentes para mudar, ainda que reconheçamos os nossos padrões emocionais? Tara Bennett-Goleman debruça-se so-
bre o problema e propõe uma nova forma desairmos das teias que tecemos.
O livro é dirigido a pessoas que conseguem funcionar, mas que sofrem devido aos seus comportamentos emocionais repetitivos. Para aqueles que sofrem de problemas psicológicos gra- ves, a autora sugere que procurem ajuda pro-
fissional antes de prosseguirem com a leitura do livro. Bennett-Goleman defende a ideia de que podemos aprender com os nossos erros – e mudar!
Contraria, assim, a conhecida afirmação de Peter Cook: ‘Tenho a certeza
que aprendi com os meus erros. Eu consigo
repeti-los de forma exacta.’ A autora pretende
ensinar o leitor a libertar-se dos seus padrões
emocionais e a substitui-los pela empatia
consigo mesmo, através da prática da Con-
centração/Meditação (Mindfulness) que permitirá ver as coisas como elas são na realida-
de, sem as distorcer ou julgar.
Há muito que aparecem no mercado livros de auto-ajuda, mais ou menos inócuos,
mais ou menos sinceros. Pode falar-se de um movimento que se configura numa
‘Biblioterapia’. Alguns são livros de excep-
ção, fornecendo ajuda real e permitindo ao
leitor reflexão e pistas para agir; a maioria,
porém, sacrifica o carácter científico ao
empiricismo do autor (e ao qual não será
alheia a pressão da lógica comercial). Na área
da terapia cognitiva, existem, contudo, traba-
lhos de cunho técnico irrepreensível com
fundamentos submetidos ao escrutínio da
investigação. Nesta área, destaco a obra de Jeffrey Young e Janet Klosko Reinventing Your Life (Penguin Books, 1994) que, para além de fornecer instrumentos e técnicas de mudan-
ça, é um bom aliado do processo terapêutico conduzido por profissionais de saúde mental.
O presente livro, Emotional Alchemy in-
sere-se na linha terapêutica daqueles auto-
res, trazendo a novidade de conjugar a tera-
pia focada nos esquemas de Jeffrey Young
com uma disciplina invulgar – a Meditação
Budista. O resultado desta associação é uma
nova abordagem aos relacionamentos, amo-
rosos e profissionais, e ao mundo interno.
Bennett-Goleman beneficia, sem dúvida,
da associação ao apelido Goleman. Casada
com Daniel Goleman, autor do mega bestseller Inteligência Emocional e associa-
da à forte publicitação da causa do Tibete e
do Budismo, facilmente este livro encaixaria
em mais um livro de auto-ajuda com um marketing forte.
No entanto, o trabalho da
autora demarcara-se pela sinceridade que atra-
vessa o texto e pela persuasão que resulta
das suas histórias, solidamente alicerçadas
numa prática clínica de vários anos.
O livro é escrito de forma agradável e
clara. Divide-se em quatro capítulos princi-
pais e dezanove subcapítulos. No final de
cada um deles, são apresentadas propostas
de exercícios que o leitor pode executar. O
texto desenvolve um fio condutor que per-
corre a filosofia Budista, depois a mais re-
cente adaptação da terapia cognitiva – a te-
rapia focada nos esquemas – e termina com
a conjugação das duas. O argumento é iniciado com um prefácio do Dalai Lama, donde se destacam as ideias que norteiam a obra:‘We all desire happiness and do not wantsuffering’ e ‘Disturbing emotions are […] the basis of anxiety, depression, confusion and stress’.
A metáfora da alquimia, que atravessa a
obra e lhe dá o título, é explicada no primeiro
capítulo. A ênfase está, não no ouro, mas no
processo de transformação. Assim, a
psicoterapeuta e professora começa o seu
roteiro com uma exemplificação da concen-
tração/meditação, primeiro passo no proces-
so de transformação dos padrões emocio-
nais. A meditação serve esse propósito de
transformar o modo como nos relacionamos
e percebemos os estados emocionais, sem
rejeitar as emoções em si mesmas.
O segundo capítulo demonstra como, de
acordo com os avanços recentes da terapia
cognitiva, a maior parte do que nos perturba
se insere em dez padrões emocionais bási-
cos ou ‘hábitos emocionais’ (‘esquemas’ ou
‘armadilhas de vida’, no idioma de Jeffrey
Young). Explica a autora: ‘A schema is a
powerful set of negative thoughts and feelings’
e ‘Maladaptive schemas lead us to neurotic
solutions.’
Quando as pessoas repetem os seus erros vezes sem conta – como, por exem-
plo, repetir relações abusadoras ou deixar bons empregos – elas podem estar a seguir
o caminho de uma esquema auto-destrutivo inconscientemente. A partir do momento em
que consigam reconhecer os hábitos emoci- onais, ficam capaz de os combater. Este é o
cerne da terapia focada nos esquemas. A autora dedica-se, então, a ensinar o leitor a reconhecer cada um dos esquemas. Dando exemplos obtidos em terapia, demonstra
como os medos e receios habituais são
despoletados nos relacionamentos, perpetu-
ando, automaticamente, sofrimentos antigos
e enevoando a realidade. A seguir, fornece
os modos para compreender como os es-
quemas funcionam, interrelacionados em for-
mas de pensar, perceber e sentir que se repe-
tem.
No terceiro capítulo, cento e setenta e
duas páginas são devotadas à aprendizagem
de uma terapia pela meditação (‘A Mindful
Therapy’). O leitor vai sendo conduzido pelo
processo da concentração/meditação, como
forma de interposição de uma consciência
reflectida e acrítica, entre o impulso e a ac-
ção, quebrando, deste modo, o automatismo
dos padrões emocionais e, consequentemen-
te, a cadeia de ‘hábitos emocionais’. A autora
ensina a adequar a consciencialização aos
padrões cognitivos, característico da terapia
cognitiva, até aos hábitos emocionais, pro-
fundamente enraizados e formados na infân-
cia. Por outro lado, explica como aplicar o
processo às relações amorosas e continua pelas relações inter-geracionais. Todo o pro-
cesso é clarificado com exemplos do seu tra-
balho clínico e dos seminários que dirigiu
com Daniel Goleman.
Ao longo do quarto capítulo, ‘Spiritual
Alchemy’, sustentado profundamente na filo-
sofia budista, Bennet-Goleman conduz o lei-
tor ao terminus de uma viagem que se supõe
não terminar. A prática da meditação resulta-
rá em mudanças cognitivas e emocionais e
numa capacidade crescente de perceber os
pensamentos e emoções, não como partes
exclusivas do self, mas como reacções co-
muns a todos os seres humanos.
Helena Espírito Santo
Instituto Superior Miguel Torga
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